Vicio nas Apostas

Já comentei isso algumas vezes, mas ainda percebo uma grande desinformação sobre o tema, e acho importante trazer essa reflexão novamente.

Com frequência, no meio dos apostadores esportivos, vejo pessoas chamando apostadores recreativos de “viciados” — ou rotulando qualquer pessoa que faz apostas com -EV (valor esperado negativo) como se fossem dependentes, só porque têm um método que não é lucrativo no longo prazo.

Esse é um erro grave, e que acaba esvaziando a seriedade do cuidado com o verdadeiro Transtorno do Jogo. Por quê?

1. Apostadores lucrativos também podem ser dependentes

Não é porque um apostador é lucrativo que ele está imune à dependência.
Muitos apostadores profissionais, inclusive, desenvolvem sintomas claros de Transtorno do Jogo.

2. A maioria dos recreativos não tem problema de vício

Apostadores recreativos são a esmagadora maioria — e a maioria não tem qualquer transtorno. Rotular todos como “viciados” apenas por não serem lucrativos é uma simplificação perigosa.

3. Relacionar vício com prejuízo é um equívoco enorme

Isso afasta o entendimento real da dependência e cria uma falsa sensação de segurança para apostadores lucrativos: “Se eu ganho dinheiro, então não corro risco de vício”.

Mas não é assim que funciona.

O vício em jogos tem múltiplos sintomas. O endividamento é apenas um deles — e, sozinho, nem é suficiente para um diagnóstico de Transtorno do Jogo.

Perder dinheiro não transforma, automaticamente, uma pessoa em dependente.

Sintomas de um possível Transtorno do Jogo

O diagnóstico envolve muito mais do que prejuízo financeiro. Outros sinais importantes incluem:

  1. Perda de interesse por outras atividades prazerosas: coisas que antes eram fonte de alegria, como videogames, sair com amigos, atividades físicas, passam a ser deixadas de lado.
  2. Isolamento social: afastamento de familiares e amigos.
  3. Necessidade de apostar todos os dias.
  4. Aumento de stakes para obter a mesma “excitação”.
  5. Apostar para conseguir prazer em eventos que antes já traziam prazer naturalmente.

Fique atento: não é sobre lucro ou prejuízo

Já atendi diversos apostadores lucrativos que apresentavam sinais claros de dependência. E também já acompanhei casos de apostadores que eram profissionais, mas com o tempo tornaram-se impulsivos, aumentaram stakes de maneira descontrolada, se endividaram — e só então começaram a questionar sua relação com o jogo.

O ponto é: o jogo tem potencial viciante para todos.

Não é uma questão de “ter cabeça forte” ou “cabeça fraca”. É uma questão neuroquímica, que age diretamente no sistema nervoso central. Não se trata de escolha. Se trata de observação e vigilância.

Mesmo sabendo o que está fazendo, mesmo sendo lucrativo, você pode ser afetado negativamente pelo seu relacionamento com as apostas.

👉 Se você está perdendo jantares em família porque ficou grudado no celular acompanhando apostas ao vivo, isso já é um sinal de que algo não vai bem — mesmo que, no final, você tenha ganhado rios de dinheiro.

Sobre o Autor

Rafael Ávila
Rafael Ávila

Psicólogo CRP 13/11.786 (UFPB)

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